Como eu "me tornei" dominadora?
Essa é uma das perguntas que eu mais recebo.
E a resposta talvez seja mais simples - e mais incômoda - do que parece:
eu não me tornei. Eu parei de esconder.
Desde que me entendo por gente, existia em mim uma necessidade de conduzir, provocar, testar limites, ocupar espaço.
E quando era mais nova, isso tinha outro nome.
Eu era a menina rebelde. A difícil. A que precisava de disciplina.
Fui criada dentro de preceitos religiosos bastante rígidos, aprendendo desde cedo o que significava ser uma “boa mulher”: cuidar da casa, ter filhos, fazer um bom casamento, ser uma boa esposa.
Então eu aprendi a performar exatamente o oposto do que sentia.
Nos relacionamentos, eu fingia ser passiva, dócil, submissa.
Mas havia uma ironia nisso tudo: mesmo quando eu ocupava o lugar de quem obedecia, eu encontrava maneiras de conduzir tudo para onde eu queria.
Eu ainda não conhecia a palavra para aquilo.
Em 2020, fui contratada para fazer uma consultoria de marketing para uma dominatrix que trabalhava fora do país.
E existe uma coisa engraçada sobre trabalhar com marketing: antes de vender qualquer coisa, você precisa entender profundamente tudo que envolve o assunto.
Então eu fui estudar o universo da cliente.
E foi aí que aconteceu.
Eu descobri o BDSM.
Ou talvez tenha descoberto uma linguagem que finalmente fazia sentido para coisas que já existiam dentro de mim.
Depois que eu vi, não consegui mais desver.
Comecei a estudar obsessivamente: livros, cursos, artigos científicos, relatos, história, psicologia, práticas, dinâmicas…
Eu queria entender tudo.
Demorei cerca de um ano até finalmente ter coragem de viver meu primeiro encontro kink.
Naquela época não existia dinheiro envolvido.
Existia curiosidade.
Desejo.
E uma vontade quase desesperada de experimentar aquilo que eu sentia que tinha passado a vida inteira reprimindo.
A cena BDSM na minha cidade era - e ainda é - pequena. Algumas vezes precisei viajar para outro estado para encontrar pessoas dispostas a viver aquelas experiências comigo.
E não, não foi tudo maravilhoso.
Tive experiências ruins.
Encontrei homens que desejavam a fantasia de se entregar, mas que não conseguiam realmente sustentar uma dinâmica de poder.
E isso me obrigou a aprender uma coisa importante:
nem todo homem que quer se submeter está preparado para se entregar.
Por muito tempo, precisei tomar cuidado para que essas experiências não contaminassem a maneira como eu enxergava o BDSM.
Porque, apesar de tudo, havia uma coisa que permanecia:
eu nunca tinha me sentido tão livre para ser eu mesma.
Comecei a enxergar o BDSM como uma arte erótica.
Uma linguagem.
Uma forma de expressão.
Uma maneira de explorar poder, desejo, identidade e vulnerabilidade.
Até que, no fim do ano passado, enquanto eu ainda trabalhava com marketing e atravessava uma crise de burnout, alguma coisa finalmente ficou óbvia.
Eu estava cansada de entregar meu tempo para pessoas que não o valorizavam.
E pensei:
se vivemos em uma sociedade onde tempo é dinheiro, por que eu continuava permitindo que tratassem o meu como se ele não valesse nada?
Eu já tinha estudado.
Já tinha experimentado.
Já tinha repertório.
Já tinha experiência.
Então comecei a cobrar pelas minhas sessões.
Eu não me tornei dominadora, apenas descobri que aquela mulher sempre esteve aqui.
A diferença é que agora ela não está mais tentando ser uma boa menina.