Isso tem uma beleza muito sutil. Não pelas flores, sim pelo gesto. Porque, em meio ao caos, alguém apareceu e apenas quis deixar o dia bonito. *Foi meu primeiro encontro depois de muitos anos.* Ele não sabe disso. Talvez porque existam histórias que não cabem em uma mesa de café. Ele apareceu na pior semana possível! Porque a vida tem um senso de humor muito peculiar, um jeito diferente em me ensinar as coisas No domingo, fiquei doente. Passei horas sozinha no hospital. Na segunda, ele surgiu com um convite. Não respondi. Na terça, meu passado resolveu bater à porta mais uma vez. Como se não bastasse, naquele mesmo dia recebi uma das notícias mais assustadoras da minha vida. No meio de tudo isso, ele insistiu. *"Você corre? Podemos ir juntos."* Respondi apenas:"Preciso de retornar ao médico pra saber se estou liberada pra voltar a treinar" . Ele riu. *"Então você está com sorte. Sou médico."* Desconfiei. Aprendi a ter de desconfiar até da minha sombra. Estranhei a coincidência, segui a conversa. Estou aprendendo que as vezes as coincidências são algum sinal. Pediu meus exames. Me perguntou algumas coisas. E um silêncio. *"Vou pedir mais alguns exames para descartar alguns diagnósticos. Mas está tudo bem."* Estranhamente, aquilo não trouxe alívio. Trouxe ansiedade. Horas depois, outra ligação. Minha mãe havia sido encaminhada para exames pré-cirúrgicos enquanto aguardava uma segunda opinião. Tudo pesava. Se tornou difícil respirar sem imaginar o pior. E, como o universo tem esse estranho senso de humor, meu ex escolheu exatamente aquele dia para provar que uma situação ruim sempre pode piorar. O resultados dos meus exames saíram. *"Vou te encaminhar pro especialista. Conheço a pessoa certa."* E mais um convite.*"Estou de folga. Quer jantar?"* "Obrigada... mas não estou bem." *"Eu sei. Conversou com alguém?"* "Não, ainda não." *"Então conversa comigo hoje em um jantar. Não fica sozinha."* "Não vou ser uma boa companhia." *"Não tem problema."* Inventei outra desculpa. "Trabalho à noite." *"Passo em uma hora. Tomamos um café e te deixo em casa antes das oito."* Pensei que um café não faria diferença. Esquecer por um hora o restante do mundo. Ele me buscou. Conversamos sobre banalidades. Até ele perguntar, qual o meu trabalho. Pela primeira vez em muito tempo, contei o que faço sem medir palavras. Esperei o julgamento. Veio apenas curiosidade. *"O que exatamente é uma camgirl?"* Soltei as palavras que pareciam pesadas naquele momento, "tiro a roupa pra alguns desconhecidos na internet e coisas neste sentido." Ele apenas ouviu. "*Agora faz sentido você trabalhar à noite, você ganha o suficiente pra viver bem? * Minha vez de sorrir e perguntar o que é "viver bem". E seguimos conversando. Como se aquela informação fosse só mais um detalhe, e não um rótulo. Estranhei tamanha gentileza e cuidado com as palavras, não lembrava mais o que era a ausência de julgamento e palavras ásperas. Me deixou em casa, desejou um bom trabalho. Logo pensei, já já me bloqueia. Pouco depois chegou a mensagem. *"Te enviei algo que achei bonito, espero que goste. Se você continuar na cidade e um dia sua folga coincidir com a minha, eu gostaria de te convidar para jantar. Se cuida."* Depois de tantos dias ouvindo notícias ruins, depois de tanta crueldade, tanto medo e tanto silêncio... Foi estranho descobrir que ainda existem pessoas que apenas ouvem sem julgar. E oferecem sem exigir. A gentileza chegou justamente quando já tinha esquecido como ela se parecia. Não sei como essa história termina, nem se ela continua. Nem a da minha saúde. Nem a saúde da minha mãe. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu sorri. E lembrei que às vezes, um único gesto de gentileza devolve à vida um pedaço de nós que achávamos ter perdido.
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