SSC
A sua segurança no BDSM pode depender de você saber disso.
Se você pratica BDSM, principalmente se está começando agora, entender esse conceito pode ser muito mais importante do que conhecer dezenas de práticas diferentes.
Recentemente, viralizou um vídeo de uma Domme praticando trampling em um submisso.
O que chamou atenção não foi apenas a intensidade da prática, mas a aparente ausência de cuidados básicos de segurança - inclusive diante de uma palavra de segurança.
E isso me fez pensar em quantas pessoas entram no BDSM conhecendo muito sobre fantasia e muito pouco sobre segurança.
SSC significa Safe, Sane and Consensual: Seguro, São e Consensual.
E entender cada uma dessas palavras muda completamente a forma como você enxerga uma cena BDSM.
BDSM envolve atividades que podem ter riscos físicos e psicológicos. O SSC existe justamente para que esses riscos sejam reconhecidos, compreendidos e administrados pelas pessoas envolvidas.
Safe - Seguro:
significa conhecer os riscos daquela prática e tomar medidas para reduzi-los. Conhecer o corpo, a técnica, os limites e as consequências possíveis faz parte da responsabilidade de quem conduz uma cena.
Sane - São:
significa que as pessoas envolvidas precisam estar em condições de compreender o que estão fazendo e consentindo. Não é sobre considerar o #BDSM “normal” ou “anormal”. É sobre capacidade de decisão, consciência e responsabilidade.
Consensual - Consensual:
talvez seja a parte mais importante.
Consentimento não é um detalhe burocrático antes da cena.
É algo que permanece durante toda a dinâmica.
E aqui existe uma diferença fundamental entre submissão e ausência de escolha.
Uma pessoa pode entregar o controle dentro de uma dinâmica consensual.
Ela não entrega o direito de deixar de ser ouvida.
Por isso existem limites, acordos, negociação e palavras de segurança.
E uma palavra de segurança NÃO É um elemento decorativo da cena.
Se ela foi estabelecida como o mecanismo para interromper ou modificar uma prática, ignorá-la significa ignorar um limite que havia sido previamente acordado.
Isso não é “ser uma Domme mais cruel”.
É romper a estrutura de consentimento que sustenta aquela dinâmica.
Para mim, dominar nunca significou simplesmente poder fazer alguma coisa.
Significa ter alguém confiando em mim o suficiente para me entregar poder - e ter responsabilidade suficiente para saber o que fazer com ele.
Você já sabia disso?
FunFact: Já fui chama de "Domme boazinha" por levar isso muito a sério...
#inversão sem ligar a câmera não dá, vadias 😩
Como eu "me tornei" dominadora?
Essa é uma das perguntas que eu mais recebo.
E a resposta talvez seja mais simples - e mais incômoda - do que parece:
eu não me tornei. Eu parei de esconder.
Desde que me entendo por gente, existia em mim uma necessidade de conduzir, provocar, testar limites, ocupar espaço.
E quando era mais nova, isso tinha outro nome.
Eu era a menina rebelde. A difícil. A que precisava de disciplina.
Fui criada dentro de preceitos religiosos bastante rígidos, aprendendo desde cedo o que significava ser uma “boa mulher”: cuidar da casa, ter filhos, fazer um bom casamento, ser uma boa esposa.
Então eu aprendi a performar exatamente o oposto do que sentia.
Nos relacionamentos, eu fingia ser passiva, dócil, submissa.
Mas havia uma ironia nisso tudo: mesmo quando eu ocupava o lugar de quem obedecia, eu encontrava maneiras de conduzir tudo para onde eu queria.
Eu ainda não conhecia a palavra para aquilo.
Em 2020, fui contratada para fazer uma consultoria de marketing para uma dominatrix que trabalhava fora do país.
E existe uma coisa engraçada sobre trabalhar com marketing: antes de vender qualquer coisa, você precisa entender profundamente tudo que envolve o assunto.
Então eu fui estudar o universo da cliente.
E foi aí que aconteceu.
Eu descobri o BDSM.
Ou talvez tenha descoberto uma linguagem que finalmente fazia sentido para coisas que já existiam dentro de mim.
Depois que eu vi, não consegui mais desver.
Comecei a estudar obsessivamente: livros, cursos, artigos científicos, relatos, história, psicologia, práticas, dinâmicas…
Eu queria entender tudo.
Demorei cerca de um ano até finalmente ter coragem de viver meu primeiro encontro kink.
Naquela época não existia dinheiro envolvido.
Existia curiosidade.
Desejo.
E uma vontade quase desesperada de experimentar aquilo que eu sentia que tinha passado a vida inteira reprimindo.
A cena BDSM na minha cidade era - e ainda é - pequena. Algumas vezes precisei viajar para outro estado para encontrar pessoas dispostas a viver aquelas experiências comigo.
E não, não foi tudo maravilhoso.
Tive experiências ruins.
Encontrei homens que desejavam a fantasia de se entregar, mas que não conseguiam realmente sustentar uma dinâmica de poder.
E isso me obrigou a aprender uma coisa importante:
nem todo homem que quer se submeter está preparado para se entregar.
Por muito tempo, precisei tomar cuidado para que essas experiências não contaminassem a maneira como eu enxergava o BDSM.
Porque, apesar de tudo, havia uma coisa que permanecia:
eu nunca tinha me sentido tão livre para ser eu mesma.
Comecei a enxergar o BDSM como uma arte erótica.
Uma linguagem.
Uma forma de expressão.
Uma maneira de explorar poder, desejo, identidade e vulnerabilidade.
Até que, no fim do ano passado, enquanto eu ainda trabalhava com marketing e atravessava uma crise de burnout, alguma coisa finalmente ficou óbvia.
Eu estava cansada de entregar meu tempo para pessoas que não o valorizavam.
E pensei:
se vivemos em uma sociedade onde tempo é dinheiro, por que eu continuava permitindo que tratassem o meu como se ele não valesse nada?
Eu já tinha estudado.
Já tinha experimentado.
Já tinha repertório.
Já tinha experiência.
Então comecei a cobrar pelas minhas sessões.
Eu não me tornei dominadora, apenas descobri que aquela mulher sempre esteve aqui.
A diferença é que agora ela não está mais tentando ser uma boa menina.
Uma coisa que pouca gente te conta sobre prazer anal:
ele não é uma coisa “de gay”, não é uma aberração e também não depende simplesmente da próstata.
Existe uma quantidade enorme de sensibilidade na região anal e pélvica, e pessoas com próstata relatam prazer em diferentes pontos dessa região. Em um estudo, inclusive, a próstata nem sequer apareceu como a única - ou principal - fonte de prazer para todo mundo.
Então por que tanta gente ainda sente vergonha de admitir que gosta?
Porque talvez o problema nunca tenha sido o corpo.
Talvez tenha sido tudo o que ensinaram a você sobre o que um homem deveria gostar.
E é justamente aí que BDSM começa a ficar interessante.
Porque quando você deixa de se preocupar tanto com o que “deveria” sentir, começa a descobrir o que realmente sente.
Curiosidade não é obrigação.
Você não precisa gostar de nada só porque alguém mandou.
Mas também não precisa passar a vida inteira dizendo que não gosta de algo que nunca teve coragem de experimentar.
Eu acho essa diferença fascinante.
E você?
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