Começar a tatuar foi mais do que mudar a aparência, foi atravessar um portal dentro de mim. Como se, ao marcar a pele, eu estivesse finalmente assumindo a autoria da minha própria existência. Eu sempre disse que conhecimento e tatuagem ninguém tira da gente. A vida me levou tantas camadas de quem eu era, que eu senti uma urgência silenciosa de resgatar algo que fosse só meu. Comecei a tatuar como quem reivindica território. Não por rebeldia, mas por reconexão. Cada traço era uma forma de dizer: eu ainda estou aqui. Eu ainda sou. Não era sobre ter algo que ninguém pudesse tirar. Era sobre escolher algo que fosse exclusivamente meu, uma decisão nascida do meu desejo, da minha consciência, da minha história, a tatuagem me lembrava que eu não havia desaparecido. Eu ainda habitava meu corpo. Ainda escolhia. E, naquele momento, marcar a pele foi também marcar um retorno a mim. Sobre ser. Tatuagem é um gesto de permanência no efêmero. É dizer: eu estive aqui. Eu senti isso. Isso me atravessou. Meu corpo deixou de ser apenas matéria e virou narrativa. Cada tatuagem é uma tentativa de dar forma ao invisível, é um fragmento da minha travessia, dando espaço as novas versões de mim. São afirmações de existência, identidade. Vejo fotos minhas sem tatuagem e quase não me reconheço. Como se faltasse a camada mais honesta de mim, como se faltasse a coragem de se inscrever no próprio tempo. Hj habito meu corpo com mais consciência, ele não é só o que carrego, é o que escrevo, minha pele carrega minhas perguntas, minhas rupturas, minhas reconstruções. Tatuar é, para mim, um ritual íntimo de presença. É assumir que sou processo, mas também sou marca. Sou passagem, mas também memória. “E quando envelhecer?” me perguntam... Serei uma velha tatuada. Com a pele marcada pelo tempo e pela coragem, rugas misturadas a tinta, memória sobre memória. Pq, no fim, envelhecer tatuada é só continuar sendo fiel a história que escolhi escrever em mim. #tattoo
1
Postar